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Câncer na adolescência: as dificuldades, a aceitação e a superação

11/05/2018 às 21:42

Câncer na adolescência: as dificuldades, a aceitação e a superação

Ao crescimento desordenado de células que invadem os tecidos e órgãos dá-se o nome de câncer. E se a doença já é capaz de abater emocionalmente um adulto, imagine um adolescente, que está passando pela fase com mais incertezas da vida com um acréscimo de dificuldade.

As crianças nem sempre conseguem compreender a gravidade do seu quadro, mas o adolescente é consciente e sofre até mesmo por antecipação. O LIVRE conversou com duas meninas que passaram pelos dilemas de dividir a adolescência com a leucemia – câncer no sangue – e ambas mostraram algo em comum: a descoberta da doença trouxe o medo de não serem aceitas.

Carolaine Pereira Souza, 16 anos, de Juara, e Juliana Zaine da Silva, 18 anos, de Sinop, são duas guerreiras que passam por tratamento no Hospital de Câncer de Cuiabá e ficam hospedadas na Associação de Amigos de Criança com Câncer (AACC).

A primeira começou o tratamento aos 13 anos e hoje já não há células cancerígenas em seu corpo. A segunda começou aos 16 anos e segue em tratamento, vencendo um dia de cada vez.

Diagnóstico

Carolaine começou com muita dor de garganta e nos ossos, em Juara os médicos desconfiavam de dengue, porém, sua mãe a trouxe para consultar com um otorrino em Cuiabá.

“Ele viu que meu hemograma estava muito baixo e decidiu mandar para um especialista de sangue, que viu que estava muito alterado, aí já mandou a gente para o hospital do câncer e lá deu o diagnóstico que era leucemia”, contou Carolaine.

Ela vem combatendo a doença desde então, há três anos e nove meses. Agora já terminou todas as sessões de quimioterapia e conta com alegria como é essa vitória, mas no começo não foi bem assim.

“Foi bem difícil, eu chorava bastante, eu pensava que ia perder o cabelo, meus amigos, não ia mais voltar para escola, eu pensava que não ia conseguir. Mas eu fui ganhando forças de amigos, eles mandavam cartinhas para mim. Foi passando o tempo e consegui me recuperar”, lembrou a adolescente.

Já Juliana começou com uma perda de peso drástica aos 16 anos, passando de 68 kg para 53 rapidamente, sentia muita fraqueza, vomitava, não conseguia comer e tinha muita febre. A leucemia alterou seus dois rins, então, a princípio, estava tratando como um problema nos rins.

“Eu vim pra Cuiabá em uma consulta com um médico especialista em rins, ai ele me olhou e disse que queria investigar mais coisas, pediu para eu ser internada na Santa Casa para descobrir. Na Santa Casa a médica chegou e disse que eu estava com leucemia”, contou Juliana.

Ela ficou 40 dias internada no hospital em isolamento. Juliana contou que nesse período a ficha ainda não tinha caído, só começou a perceber o que estava acontecendo quando foi para a AACC e encarou sua nova realidade.

“Quando eu cheguei aqui [na AACC] tinha só criancinhas menores, ai eu achei que eu não ia conseguir, porque antes eu tinha vários amigos e depois só tinha eu e minha mãe pra conversar. Foi bem difícil no começo”, lembrou.

Ela se sentiu sozinha, a falta dos amigos a entristecia. Juliana ficou mais dois meses na AACC e quando finalmente pôde voltar para casa, ficou somente uma semana e já precisou voltar para Cuiabá para continuar o tratamento.

Aos 18 anos, Juliana ainda está na batalha contra o câncer, mas agora já não precisa ficar internada, vai ao hospital somente para tomar as medicações e também pode levar para casa, em Sinop, para ser medicada em um posto de saúde. “Agora eu fico quase um mês em casa, ai eu venho”, disse.

As duas precisaram ficar um ano sem estudar e hoje estão cursando o 2º ano do ensino médio. Juliana ainda com dificuldades, visto que o tratamento ainda a faz precisar de remédios muito fortes.

Carolaine, que já está na fase de manutenção, vem a Cuiabá só a cada 40 dias para limpar o cateter e a cada dois meses para fazer o hemograma, que há nove meses tem confirmado sua cura.

“Hoje estou bem, graças a Deus, voltei com toda minha rotina normal”, contou a adolescente.

Corajosa, durante o tratamento Carolaine só teve medo nas internações, quando se sentia muito fraca, mas agradece por nunca ter precisado ir para a UTI. A força ela disse que vem de Deus.

“Venho tratando faz três anos já, três anos e nove meses e está uma benção, já terminei minhas quimios e eu queria falar para quem está começando agora que vai achar que está difícil, é difícil mesmo, mas tenha fé em Deus, que isso logo passa, é só uma fase”, disse Carolaine.

Cabelos

Algo que ambas citaram, foi o medo de não serem aceitas depois de perder os cabelos. Temiam ficar feias e que as pessoas se afastassem.

“Quando eu comecei a tomar quimio, eu pensei ‘vou perder meu cabelo, vou ficar feia, as pessoas vão olhar para mim e vão achar ‘que monstro’’. Mas não, o cabelo é o que menos importa no tratamento”, contou Carolaine.

Ela começou a perder os cachos loiros aos poucos, como o cabelo era bem grande, foi cortando, como ela disse, por etapas, até ficar completamente careca aos seis meses de tratamento. Hoje já está com os cabelos na altura dos ombros.

Juliana relatou que no começo sempre se perguntava porque tudo estava acontecendo com ela. “Eu via todas as minhas amigas bem e eu não queria estar passando por isso. Sofri bastante no começo, porque eu queria estar em casa com as minhas amigas, saindo junto e não podia”, lembrou.

A assistente social da AACC Marilce Barros acompanha todas as famílias que passam pela casa, ela contou que para os adolescentes tudo é muito mais difícil, visto que eles precisam deixar coisas comuns para idade, como os lanches, passeios em shopping e a escola.

“Eles são limitados a tudo isso, perdem. E a questão de amizade, como a Carolaine falou, você se acha feio, que vai ser desprezado, vai passar por preconceito, então tudo isso atinge mais o adolescente do que a criança. Para a criança tudo é novo, por mais que há sofrimento, mas ela aos pouquinhos consegue se adaptar, mas o adolescente é mais difícil mesmo”, disse a assistente social.

A jovem de Sinop, Juliana, que ainda segue em tratamento, disse que se sente cansada, como se o tratamento nunca fosse acabar, mas que jamais desiste de lutar.

“Tem que ter muita fé em Deus primeiramente e muita força, porque difícil é, mas com perseverança a gente consegue”, disse.

Lembranças

Entre altos e baixos, as duas tiveram grandes momentos durante o tratamento. Carolaine contou que o momento mais feliz foi quando fez a última biópsia, que não apontou mais nenhuma célula cancerígena.

“O dia que ela fez essa última biópsia, ela chegou aqui com aquele olharzinho de ‘meu Deus, agora eu posso passar mais tempo em casa’. Isso foi há nove meses. É gratificante quando você vê um resultado desse. Quando eu vejo eles melhorando, eu falo ‘nossa, vale a pena cada segundo, cada conquista aqui com as crianças’”, contou a assistente social Marilce.

Juliana, aos três meses de tratamento, fez o primeiro bloco de 10 dias de quimioterapia, o que a deixou bastante debilitada. Ela teve reação alérgica à quimioterapia e ficou com o corpo todo queimado.

“Minha boca feriu tudo, da garganta para o lado de fora, e abaixou muito as minhas plaquetas, elas foram a 2 mil e o normal da nossa plaqueta é de 150 mil. O tempo todo eu tomei muita plaqueta, eu cheguei a quase desmaiar porque estava com plaqueta baixa, potássio baixo, hemoglobina baixa, foi quando eu tive que ficar bastante tempo internada de novo”, lembrou a adolescente em meio a lágrimas, dizendo que esse foi o momento mais difícil de seu tempo em tratamento, 30 dias de internação. O dia mais feliz foi quando teve alta desse período.

Ela contou que também ficou muito feliz quando foi para casa pela primeira vez, o medo de estar sozinha foi vencido pela presença dos amigos, que a esperaram na rodoviária – todos os garotos com cabelos raspados -, eles levaram flores, cantaram e fizeram plaquinhas.

Algo que marcou as duas foi o adeus aos amigos que fizeram na AACC, que, infelizmente, não aguentaram o difícil caminho até a cura.

“Quando isso acontecia, eu procurava não ficar pensando muito, porque querendo ou não a gente começa a pensar na gente. Eu ficava bem triste, mas procurava pensar que cada caso é um caso”, disse Juliana.

“Amigos que eu conheci num dia, ai quando amanhecia já não estava mais do meu lado. Isso foi bastante ruim. Porque a gente se apega aos amigos aqui e perder assim é difícil, mas só que agora eles estão em um lugar melhor do que a gente”, disse Carolaine.

Ela acredita que esses amigos foram chamados por Deus porque já tinham cumprido sua missão na terra. “Eles já pararam de sofrer e foram para um lugar melhor. Já cumpriram a promessa deles”, disse a adolescente, que aos 16 anos é um exemplo de fé.

Fonte: O Livre

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